A Heroína dos Sapos
Fracas minhas histórias, minhas lembranças muito mais.
Entre cocadas, alfinins, polentas, macarronadas de sardinhas importadas e doces de abóboras vagam minhas parcas lembranças do vasto mundo culinário escolar de minha infância. Nessa verdadeira cozinha da Ofélia ocorreu um fato inusitado que merece pauta neste folhetim de incomensurável valor histórico.
A temida, odiada, assustadora, precurssora da palmatória e respeitada matriarca da educação ipueirense, em horas de recreação vendia seus quitutes e com sua enraizada consciência ambiental defendia os anfíbios tão queridos, livrando-os dos incáutos bruguelos em sua ansia de fazerem verdadeiros cururucídeos com cloreto de sódio.
Certa vez, a mais amada e desejada em sonhos pueris discentes, a querida professora primária - creio que em minha quarta série, estava a ditar um infindável questionário de geografia..."Ponto parágrafo com letra maiúscula"... Isso mesmo, esse era o seu jargão predileto em enfatizar a boa postura estilística e gramatical, quando surge em meio aos crotes do jardim de nossa escola com sua monótona cantoria:
"Em ronco que a terra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". "¹
Pânico, gritos, alarido infernal de crianças em busca de pedras e porretes e meninas com seus chiliques esperando socorro de algum amoreco. Os safados tentando ver as calçolas por baixo das saias plinçadas entre coxas roliças e meias três quartos, recebendo pontapés doloridos dos bojudos congas azul-royal.
Em meio ao pandemônio que se tornou a frustada aula, ninguém percebeu a iminente fobia que a nossa professorinha sentia pelo bicho. Somente eu, que alimentava uma quase incestuosa ternura por ela vim notar o seu desfalecimento sobre o "bureau", mais parecendo a Vênus de Milo em sua explendorosa magnitude em um pedestal museológico. Gritei, tentei acalmar o ânimo da pivetada e nada, o mar estava bravio, em tornado.
Eis que surge a redentora. Como uma alvissareira em suas flâmulas cobrindo seu corpo inviolável, segurou o monstro pelo colarinho assim como se faz com um felino, o acariciou e como em segredo, sussurou-o: "liga não, bonitinho. São todos uns tolos".
¹Manuel Bandeira. Os sapos.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
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