quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tesmamentos de Judas

Sou Judas Eucariotes
De Jesus o traidor
Este é meu testamento
Com o que tenho de valor
Pois tudo que aqui juntei
A vocês agora dou.

Para nosso amigo Neto
Rapaz de muito valor
Para ele deixo um pinico
Com cheirinho de cocô
E esta velha dentadura
Que herdei de meu avô

Para o colega Verinho
Um cara que se garante
Deixo uma velha botina
Com cadarço de barbante
Ainda um cachorro de gesso
Para ele por na estante

Para a amiga Marreca
Que de sua mãe foi querida
Deixarei como herança
A minha calça comprida
O meu chapéu de cow-boy
E a minha blusa florida

Minha velha bata branca
Que é de minha estimação
É pro padre Joanilson
Que também é de São João
Que é pra não sentir calor
Nestas tardes de verão

Para Galega de Chica
Deixo com muito amor
Sete chaves num chaveiro
Cada qual com seu valor
Uma delas abrirá
O coração de seu amor

Para o colega Yurim
Com prazer eu vou deixar
O meu pente e a brilhantina
Para ele se pentear
E uma camisa listrada
E rapé pra ele cheirar

Minha querida Joelma
Que é filha de fazendeiro
Deixarei como herança
Minha roupa de vaqueiro
O meu cavalo alazão
E o meu cachorro trigueiro

Para colega Potira
Que é minha preferida
Vou deixar com muito gosto
Meu remédio pra ferida
O meu livro de receitas
E uma moringa partida

Para colega Dione
Uma mulher verdadeira
Vou deixar meu manzuá
Um pilão e uma peneira
Uma capa pra sofá
E um pingüim de geladeira

Para a amiga Nena
Que eu quero muito bem
Vou deixar bem satisfeito
Uma gaiola e um quenquém
E meu carimbo sem tinta
Pra não por falta em ninguém

Para o colega Lobão
Um cara mui-divertido
Eu deixo uma velha cueca
Da cor de burro-fugido
O meu coador de café
E um velho xale florido

O meu amigo Babalu
Não poderia esquecer
Por isso deixo pra ele
A máquina de escrever
Dois pebas de estimação
E uma blusa de crochê

Já para bela Solange
Mulher de grande presteza
Deixo meus óculos Ray-ban
E o meu par de japonesa
E uma peruca Chanel
Para realçar sua beleza

Pra minha amiga Mazé
Deixo algo muito especial
Minhas calças de veludo
Uma espingarda e um bornal
Minhas botas sete léguas
E o meu perfume floral

Para minha amiga Burinha
Chefe de secretaria
Deixo meu rosário bento
E uma imagem de Maria
Para ela rezar por mim
Toda noite, todo dia.

Para a amiga Valdenia
Que é um cara muito legal
Deixo meu computador
Com Internet e firewall
Meu número no ICQ
Minha paquera virtual

Pra minha colega Nucleide
Pois não posso esquecer dela
Deixarei meu cinturão
De couro, mas sem fivela.
Minha tevê preto-e-braco
Para ela assistir novela

Para a Rainha Confresa
Que gosta de muita ação
Deixarei os trinta dinheiros
Que ganhei com a traição
Que será pra ela apostar
Já na próxima eleição

Para o colega Fernando
Que é quem manda no pedaço
Deixo para ele um jucá
E um par de cavalo de aço
E a uma velha carabina
Que foi usada no cangaço

Para meu colega Chinha
Que é inconseqüente e boçal
Deixo meu violão sem corda
E meu velho berimbau
Que é para ele completar
O seu grupo musical

Para a prefeita da cidade
Que ta com o cabelo pintado
Mudaram as suas penas
Pra bunina esfarinhado
Não saia na chuva não
Pra não ficar desbotado
Cor de arara quando foge
É igual a Walter Mercado


No momento eu me despeço
Pois é chegada minha hora
De tudo que fiz de errado
Eu me arrependo agora
E os meus lenços eu ofereço
Pra aquele que por mim chora.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Heroína dos Sapos

A Heroína dos Sapos
Fracas minhas histórias, minhas lembranças muito mais.
Entre cocadas, alfinins, polentas, macarronadas de sardinhas importadas e doces de abóboras vagam minhas parcas lembranças do vasto mundo culinário escolar de minha infância. Nessa verdadeira cozinha da Ofélia ocorreu um fato inusitado que merece pauta neste folhetim de incomensurável valor histórico.
A temida, odiada, assustadora, precurssora da palmatória e respeitada matriarca da educação ipueirense, em horas de recreação vendia seus quitutes e com sua enraizada consciência ambiental defendia os anfíbios tão queridos, livrando-os dos incáutos bruguelos em sua ansia de fazerem verdadeiros cururucídeos com cloreto de sódio.
Certa vez, a mais amada e desejada em sonhos pueris discentes, a querida professora primária - creio que em minha quarta série, estava a ditar um infindável questionário de geografia..."Ponto parágrafo com letra maiúscula"... Isso mesmo, esse era o seu jargão predileto em enfatizar a boa postura estilística e gramatical, quando surge em meio aos crotes do jardim de nossa escola com sua monótona cantoria:
"Em ronco que a terra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". "¹
Pânico, gritos, alarido infernal de crianças em busca de pedras e porretes e meninas com seus chiliques esperando socorro de algum amoreco. Os safados tentando ver as calçolas por baixo das saias plinçadas entre coxas roliças e meias três quartos, recebendo pontapés doloridos dos bojudos congas azul-royal.
Em meio ao pandemônio que se tornou a frustada aula, ninguém percebeu a iminente fobia que a nossa professorinha sentia pelo bicho. Somente eu, que alimentava uma quase incestuosa ternura por ela vim notar o seu desfalecimento sobre o "bureau", mais parecendo a Vênus de Milo em sua explendorosa magnitude em um pedestal museológico. Gritei, tentei acalmar o ânimo da pivetada e nada, o mar estava bravio, em tornado.
Eis que surge a redentora. Como uma alvissareira em suas flâmulas cobrindo seu corpo inviolável, segurou o monstro pelo colarinho assim como se faz com um felino, o acariciou e como em segredo, sussurou-o: "liga não, bonitinho. São todos uns tolos".


¹Manuel Bandeira. Os sapos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Vitalina


"Bota pó Vitalina tira pó, Moça velha não sai mais do caritó!"

Será o mal ou benção?
Shindller perde em sua lista.
Lá, os índices são altos...
Natalidade vs Caritodade!
Se bem que lembro-me
Dona Vitalina,
Macumbeira...
Pembeira...
Rezadeira...
Cristã!
Acima de tudo
Caritó!
Estufava-se em dizer:
"Melhor só..."

"Moça velha quando vai rezar o terço
Pai Nosso Ave Maria se não caso eu enlouqueço"
Bota Pó...

Enquanto isso as anáguas revoam em busca do prazer solidão...

"Moça velha bota pó branco e azul,
Moça velha é do bico do urubu!"
Bota Pó...

E seguindo a liturgia diária
Sua vida resumia-se no sentido real do Dogma!
"Bota Pó Vitalina tira pó Moça velha não sai mais do caritó!"


terça-feira, 29 de julho de 2008


"Virgem Mãe do Perpétuo Socorro"

Virgem és tu - Dona Joana. que o teve virginal.
Socorro? De Áurea de D. Luzia, De Baia, E tantantas Socorros manifestas em nossa emoção filial.

"Eis aqui vossos servos fiéis"

São aos que seus pés ajoelham-se, humilham-se, proclamam-se por sua serva vitória. Vitoria dos menores, dos lúgubres, lamuriosos, dos que almejam apenas sua honrosa glória.

"Irmanados num só pensamento"

Em uníssono, pressem o bom, a boa ventura desse povo. Amigo. Indelével. Amistoso. Povo que nos mais profundos infortúnios glorificam Sua existência e mesmo assim acreditam no futuro de sua união.


"Curvar nossos Joelhos aos seus pés"


Sinal de submissão maternal, fraternal, ufânico. Sinal de profunda harmonia entre Eles. Sinal de profunda fidelidade em seus costumes. Sinal de profunda
consciência de que são um Povo Maior.


"Virgem Santa és nossa protetora.
"

Proteja sim. Os nossos, os vossos, os teus filhos. Pois merecem o perdão a todos aqueles que se curvam aos teus pés.


"Por sinal a nossa padroeira"


Porque todos perecem e merecem um bem maior. O bem do encontro, do reaver
entre todos os amigos, ausentes ou presentes em si, no âmago do seu manto absoluto.

"Mande a paz para todo o Brasil"

Todos merecem. Àqueles que em falta de fé pedem o abismo; àqueles que em falta de amor pedem o ódio; àqueles que em falta de verdade pedem a mentira; àqueles que em falta de terra pedem a sua volta.

"E a benção p'ráos filhos de Ipueira"

És a única e bela Senhora. Abençoa-nos, Oh! Mãe Santíssima. És a única capaz de nos remeter aos teus bens maiores.
Salve!

domingo, 1 de junho de 2008

Já Pensô!


Ipueira dos anos 80 se faz presente.
Ipueira parecia um desses lugares que querem crescer.
O silêncio, reinando em todos os instantes..
Carros? quase nenhum na rua.
As brincadeiras nos Oitão, o Grupo Velho,
Dona Bibi, a professora inesquecível.
Dra Núbia, a médica que hipnotizava com seus porres dionísios;
D. Luzia e Madim'Ana eram as médicas da família.
Atendiam e não cobravam... remédios infalívies: a fé.
Lembro-me com saudades dos anos 80.
O fim do “Grupo Véi”,
O advento do Grupo Novo
As disputas constantes pelas manobras radicais do Dicionário Seridoense
Péu, um negro que até hoje me vem na lembrança.
Pois seus porres foram edílicos... Líricos
Os banhos no Açude Velho...
Aos domingos... a valentia de Seu Moreira
Contra os imprecisos.
Vila sem cabaré.
O velho Cavalo Marinho.
O foguetório... Chhhic Buuum nos festejos da Perpétua Socorro!
E os bruguelo com seus medo enfiados nas saias balão.
“Viva Zé Pereira, Viva Juvenal...”
Papangu...HUUUUUUUUUU...Bolão de angu!
Nas tardes mornas,
O que mais gostava
era espiar as peladas e as jogadas do nego, O Lau.
quem não o lembra?
desfez-se num sonho de craque.
Nas noites dos anos 80, histórias do Nego Saco...
Atordoava os pivetes.
Ele foi visto na oiticica, dizia alguns.
Outros cantavam a Serra do Cavalo.
E suas Meninas...
Perdidas!
Dormia com medo de Deus.
Pregava-se que havia um Deus que punia,
hoje sei que Deus está na flor.

Lamúrias


Acordei,
e ao despertar da cama
ouvia-se o lamento de certas mulheres lamuriando.
Gente subia.
A lamúria se repetia.
Ouvia-se uma leve procissão.
Gente descia.
Às horas tardias.
“Será mês de Maria.
Ou até uma festa não seria?”
“Vinde pai e vinde mãe...”
Subitamente acordei.
Era ele! Era Ele!
Gente voltava.
Sorrisos nos rostos de quem iria para a redenção.
Ao entardecer gente subia, gente descia.
Era o sermão.
Aqui se tinha certeza, de que, neste torrão também se produzia.
FÉ.
E agora Fernando?
Quem não lembra das missões?
Mesmo com o passar do tempo, ou mesmo, com tuas ruínas
tuas lembranças jamais serão esquecidas.
Fala Damião!
Adeus Missão.

Paisagem Seridoense


Lata-velha!
Sertões com Zebras e Leões.
Catabi!
Seria África?
Hum!!!
Só jeitos de ver o mundo.
Só ares...
Peso do Coronel,
sem Lampião,
vendo no escuro.
Piaba frita na chapa craniana,
Tróia e Esparta na caixa torácica!
Decifrava mundos...
Fazia a ponte cidades/mato.
Segredos?
Traduzidos na fonte,
buscava as novidades.
Conhecia a língua das plantas,
sabia dos frutos a realidade.
Suco de matutos -, farto seu lagares...
Eletricidade para a cidade prenhe!
Barriguda...
Ipueira fecunda,
À espera do Baile.
*"No céu,
uma ARRIBAÇÃO com o bico escreve,
o que as asas apagam"
*adaptado de verso caipira, que acredito seja de domínio público.